Dom quixote de La Plancha

Resenha & Entrevista  – Dom quixote de La Plancha

por: Marina Rodrigues

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Sinopse: Dom Quixote de La Plancha é um livro sobre a dificuldade de lidar com situações-limite, sobre a dor de precisar de um transplante e sobre a angústia de esperar por um órgão que nunca chega. Mas também é um livro sobre a solidariedade que salva vidas. Aquela solidariedade que às vezes falta e às vezes tarda, mas que nos ensina que não há outro caminho para que nos tornemos realmente humanos.

Número de páginas: 124
Onde encontrar? Livraria Cultura
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Dom Quixote de La Plancha é, sem dúvidas, um dos melhores livros que li este ano. É quando me deparo com obras como essa que me orgulho do trabalho de valorização da literatura nacional que proporcionamos aqui no Blog, é quando me deparo com obras como essa que também me pego triste ao perceber que ainda tem gente que não valoriza essa vertente brasileira tão querida! Dom Quixote de La Plancha é um verdadeiro achado e Laura Bergallo também, uma escritora sensacional, que tem mais de quinze livros lançados e ganhou o prêmio Jabuti em 2007 com o livro “Alice no espelho”.
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Em primeira análise, devo dizer que a edição do livro já é uma parte da obra que acrescentou muito a escrita de Laura. André Côrtes, formado em desenho industrial, com mestrado em design pela PUC-RIO e autor das aquarelas de abertura da série Ó, pai, ó! da rede Globo, constrói a história com seus retratos singelos, tão artísticos, que realmente parecem rabiscos que acidentalmente viraram a arte mais pura, como se fossem linhas que se juntassem para narrar uma história que, assim como as ilustrações, é uma confusão de linhas tortas que se juntam em uma explosão de intensidade e delicadeza ao mesmo tempo. Aqui aproveito para deixar meus parabéns e apreciação pelo ilustrador desse livro.
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Seguindo em diante, ainda com a análise da edição do livro, o que também me encantou foi a forma como são divididos os capítulos, em atos, assim como num show de circo, que é a ambientação da história. Ademais, no início de cada ato, nos deleitamos com um trecho de alguma música com tema circense de compositores como Edu Lobo e Chico Buarque, uma delícia de ler!
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Finalmente, chegamos na história. Bem, devo dizer que não poderia haver pessoa melhor para esse livro ter chegado em mãos. Quem me conhece sabe: sou apaixonada por circos, toda vez que algum deles vem a cidade, minha mãe passa o mês ouvindo meus planos de como vou fugir com a trupe e ela não vai conseguir me segurar! Confesso, nunca tive coragem, mas, ao ler o livro, pude fugir algumas horas com o Gran Circo Cervantes! Para o deleite da minha vida circense frustrada.
Eu disse adeus, já vou com os meus numa turnê.
O livro segue a história do Gran Circo Cervantes, uma digníssima homenagem ao escritor de Dom Quixote, Miguel de Cervantes, uma paixão de Juan Alonso Saavedra, cigano que fundou o circo itinerante ao ter que fugir da Espanha, sua terra natal, para o Brasil, Rio de Janeiro, por causa da 1º guerra mundial. Logo, apaixona-se por uma mocinha rica que frequentava seu circo e, caindo em seus encantos, foge com ele para viver com os saltimbancos, mas seu pai se recusa sem que ela leve uma quantia de 80 contos de réis, o que faz a companhia prosperar se se tornar um dos melhores circos do país! Então nasce o filho do casal, Rámon Fernandes Saavedra, que se transforma no palhaço Xexelento, pois a serragem de circo estava no sangue e assim nasce um dos melhores palhaços já vistos! E, seguindo a tradição do pai, uma mocinha se apaixona pelo palhaço e abandona tudo para seguir a vida circense. Assim nasce Rodrigo Valadares Saavedra, o trapezista segue com sua vida no circo, até conhecer Brigitte Leblanc, francesa de um circo rival, por quem se apaixona e tem Jean Alonso Leblanc Saavedra e depois Jean Afonso Leblanc Saavedra. Porém, tudo isso não passa de um pano de fundo para a verdadeira história que começa aqui, na quarta geração dos brilhantes e talentosos Saavedras! Jean Alonso se vê em uma encruzilhada ao precisar de um transplante de rim ao cair de sua apresentação do Rola-Rola no picadeiro do Gran Cervantes. Creio que já falei demais, deixo o resto do livro com vocês!
Qual, não sei se é nova ilusão se após salto mortal existe outra encarnação.
A leitura é tão leve, tão simples e encantadora, que me prendeu por algumas horas e o devorei em menos de um dia, tamanha a paixão que desenvolvi por aquela história e personagens. Houvesse algum erro, não teria percebido pelo nível de imersão que estava na história, coisa que mais almejo num livro e o que esse aqui conseguiu como nem um outro esse ano, levanto e aplaudo de pé. No entanto, me peguei por mais do que algumas horas, mas alguns dias, refletindo sobre aquilo que li, a minha vontade não era só seguir com o circo e deixar tudo para trás, mas era cultivar a mensagem final, fazer o mundo se conscientizar de tamanho gesto humanitário, é gigante a nobreza com que um livro de 124 páginas pode fazer com que tomes uma decisão. Bem, eu ainda não posso mudar o mundo, muito menos sozinha, tão pouco posso espalhar essa mensagem tanto quanto gostaria, mas tenho o Blog agora, e isso deve bastar por enquanto! Já avisei para minha família, agora sou doadora de órgãos, seja você também, avise a sua e ajude a salvar vidas! Se você puder, espalhe essa corrente e também há outras formas de ajudar, sabia? Uma bolsa de sangue pode salvar até 4 vidas, apenas 250 ml do tanto que circula pelo teu corpo! Tem muitas lendas urbanas relacionadas a doação por aí, então te informa aqui antes de doar e vê que isso não custa nada, um gesto que não vai fazer falta para ti, mas que pode fazer para uma outra pessoa e mudar uma vida para sempre.
Ir deixando a pele em cada palco e não olhar para trás e nem jamais, jamais dizer Adeus.
Recomendo essa obra para todo mundo que vê o mundo com os olhos de uma criança e pela alma de um poeta. Diria que esse é um livro essencial e que agora faz parte da minha formação como pessoa, indico para que faça parte da tua também! No mais, como diz as primeiras páginas do livro, palavras emprestadas de Edu e Chico “Hora de ir embora quando o corpo quer ficar. Toda alma de artista quer partir. Arte de deixar algum lugar. Quando não se tem pra onde ir”.
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Fizemos também uma entrevista com a autora que você pode conferir abaixo:
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Blog com V: Como iniciou sua carreira de escritora?
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Laura: Sempre quis ser escritora, sempre escrevi histórias. Depois de alguns anos deixando as histórias na gaveta, fiz algumas oficinas de criação literária e finalmente escrevi meu primeiro livro juvenil com o objetivo de publicar. Enviei os originais para algumas editoras, e uma delas, a Saraiva, aceitou os originais depois de quase um ano após o envio.
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Blog com V:  Como foi a sensação de ganhar prêmios e reconhecimento pelo seu trabalho?
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Laura: A sensação é muito boa, embora eu acredite que o fator sorte também conta muito para se ganhar prêmios literários. O júri é formado por pessoas, por isso a subjetividade é um fator bem influente. Mas ser uma autora premiada ajuda muito no reconhecimento por parte de editores e outros autores.
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Blog com V: Você poderia nos falar um pouco sobre sua experiência como autora?
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Laura: Para mim escrever é uma forma de reinventar o mundo. Os personagens e cenários que povoam nossa imaginação vêm à tona e tomam conta de nós. É uma experiência deliciosa, quase mística.
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Blog com V: Como foi a sensação de ser publicada em outros países?
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Laura: Bacana ter sido publicada em outros países, mas a publicação no idioma nativo é mais interessante ainda, porque o texto fica mais “puro”, já que não conta com a interferência inevitável do tradutor.
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Blog com V: Como surgiu Dom Quixote de La Plancha?
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Laura: Surgiu de minha experiência como editora de publicações médicas. Tomei conhecimento do drama dos pacientes renais crônicos e resolvi escrever sobre o tema.
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Blog com V: Qual personagem do livro você mais se identifica?
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Laura: Num certo aspecto, com a avó dos dois protagonistas. Porque o sentimento dela ao ver o filho no trapézio é o sentimento que todas nós, mães, temos ao vermos nossos filhos se tornando independentes.
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Blog com V: O grande final nos faz pensar que a história poderia ser real. Você se baseou em alguém para escrever o livro?
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Laura: Não me baseei em ninguém específico, mas sim em muitas pessoas que conheci durante a longa fase das pesquisas que fiz para o livro.
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Blog com V: Você também tem vontade de fugir com o circo?
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Laura: Acho que às vezes todos temos vontade de fugir com algum circo. Esses anseios de liberdade estão sempre presentes, de um modo ou de outro, em todos os humanos. E é bom que seja assim.
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Blog com V: Você também é fã de Dom Quixote como a família Saavedra?
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Laura: Sim, Dom Quixote é um personagem único e maravilhoso. Ele representa os voos da imaginação.
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Blog com V: O que te inspira a compor? Você tem um ritual para escrever?
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Laura: O que me inspira a compor é a observação da realidade que me cerca. Não tenho propriamente um ritual, mas geralmente vou imaginando a história e seus desdobramentos enquanto pratico minha corrida matinal no Parque do Flamengo, aqui no Rio, e depois passo para o computador logo que seja possível.
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Blog com V: Você pode deixar uma mensagem para o Blog com V e para quem deseja ser um novo escritor no Brasil?

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Laura: A melhor mensagem que posso deixar para um aspirante a escritor é: tenha consciência de que o caminho é árduo, difícil e longo, mas sempre foi assim, e quem não insiste perde a chance de conseguir.
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Esperamos que tenham gostado do post e contamos com a opinião de vocês! 🙂

MARI

 

Gosta de escrever na terceira pessoa, comer brigadeiro de colher e ler creepypasta de noite. Aprecia boa música, é uma cinéfila irremediável, leitora compulsiva e fã número um de uma boa xícara de café. Ariana, 21 anos, estudante de Medicina e não adepta de rótulos.

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57 comentários em “Dom quixote de La Plancha

  1. Adorei a resenha.. Adoro quando os livros abordam universos tão mágicos.. assim como o do circo.. e a paixão de quem trabalha nele como põe seu corpo e alma naquilo que faz ..é algo lindo, e a maneira que o livro passou isso de maneira leve , deu muita vontade de ler ❤
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mari (desculpe a intimidade haha) quero ser uma resenhista como vc quando crescer! Quanta beleza numa só resenha. Você realmente faz as pessoas lerem até o fim! Eu estou ansiosa para ler esse livro! Afinal, eu também amo a história de Cervantes, como boa amante da língua espanhola que sou.

    Abraços, e mais uma vez, parabéns!
    Ingritt
    @livrosemcena

    Curtido por 1 pessoa

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