Ode de Sangue

Resenha – Ode de Sangue

por: Pedro Felipe

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Sinopse: Com quase quatrocentos anos, a Vampira Madalena busca a salvação de sua alma vivendo e trabalhando dentro de um monastério católico. Diferente do que parecia natural, essa vampira está acostumada com a religião e seus símbolos. Foi apenas quando se depara com alguém de fé verdadeira que Madalena sente a maldição de sua raça arder sob a pele. Colocada em uma situação de vida ou morte, ela apenas tem um pedido, que ela possa contar sua vida para alguém, para que sua existência como humana e seu despertar para o dom da noite não desapareça com sua morte. Narrado em primeira pessoa, Madalena fala um pouco de como era a Itália do séc. XVII, descreve suas dificuldades e suas paixões pela arte, leitura e música. Mesmo antiga, sua humanidade e amor pela raça humana apenas crescem, e é com esse pensamento que Madalena narra sua experiência enquanto mulher e religiosa. 

Número de páginas: 73
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O irlandês Bram Stocker colocou os vampiros de vez em nosso imaginário com o lançamento de Drácula em 1897, um livro que nos apresenta uma criatura da noite sedenta por sangue. E desde então esses monstros da eternidade tem nos fascinado e aterrorizado sendo representados nas mais diversas mídias possíveis, em filmes, livros, jogos, novelas de rádio, são décadas e décadas de noites banhadas por sangue. Os vampiros foram sendo reinventados, ficando mais complexos, ganhando nuances mais humanas e até mesmo fazendo partes de dramas adolescentes como na saga Crepúsculo, desagradando os mais conservadores e trazendo um público mais novo e jovem conforme eles se afastavam de sua visão original. E de tanto ser explorado, a temática acabou ficando um tanto saturada, principalmente na literatura, fazendo com que muitas obras não acrescentassem nada de novo à mitologia vampiresca e é nesse contexto que chega a mim a obra de Nana Garces, “Ode de Sangue: Memórias Vampirescas”, um livro que nos apresenta as memórias da belíssima vampira Madalena.
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A personagem trava uma batalha pessoal, onde é martirizada pela sua maldição e pecados, em uma igreja, ela questiona e pondera sobre a religião, salvação e sua própria fé. E este é um tema recorrente na obra, as trevas, a sensualidade vampiresca, a vontade de sangue contrastando com uma mulher que ainda mantém seu lado humano atrelado ao espiritismo. Como uma justiceira, Madalena sacia sua fome de duas formas, com humanos que ela não julga dignos de vida, como assassinos, estupradores ou libertando humanos em sofrimento, doentes em leito de morte, aqueles que sofrem com cada sopro de vida. É aqui que reside uma das grandes sacadas da escritora, criar uma personagem que busca redenção de seus pecados, uma criatura pecadora por natureza buscando se redimir através de seus atos.

barraA partir daqui, contém spoilers

Na capela, Madalena acaba conhecendo um caçador, um padre que é o responsável por eliminar as criaturas da noite, que acaba lhe dando uma chance de contar sua história, de reviver suas memórias. E conforme somos conduzidos ao passado da personagem de maneira primorosa, seja pelas referências históricas e literárias que Nana coloca na obra, vamos ficando mais próximos e íntimos de Madalena, nos importando com ela e nos envolvendo com tudo que concerne a mesma. Na Itália renascentista conhecemos a infância da personagem, seus parentes, sua vida, sua ligação íntima com o cristianismo.

Em uma fuga até a biblioteca local, buscando matar seu desejo por conhecimento e leitura, a ainda jovem Madalena acaba conhecendo Giovanni, um homem sedutor, sábio e de uma aparência melancólica. A relação dos dois vai se aprofundando, conforme eles partilham seu amor pelas artes, pela leitura, pela música, desfrutando de suas juventudes e prazeres. Com Giovanni a trama do livro ganha tons de elegância, de sensualidade e a personagem de Madalena começa a desabrochar e florescer. Mas quando a mãe da mesma morre, ela decide abdicar dessa vida para se entregar ao celibato, se tornar freira e mais uma vez o enredo passa a ser norteado por questionamentos acerca da religião, da entrega de nossos hábitos e do sofrimento que precisamos passar até a salvação eterna.

No santuário onde ela passa a viver, acaba ocorrendo uma reviravolta chocante, que eu não contarei aqui para fins de surpresa, só posso adiantar que tal acontecimento quase leva a morte de Madalena, que é salva por Giovanni e enfim transformada em vampira, em um momento inesquecível, em que Nana descreve com primor a transformação da mortalidade para a imortalidade, do dia para a noite. Madalena passar a ser então uma personagem incumbida de ódio e movida por um desejo sanguinário de vingança por aqueles que a humilharam e traíram, dando a leitura um ar mais sombrio e mais próximo do que estamos acostumados com vampiros. Mas sem nunca perder o lado filosófico e religioso que Nana tão bem inseriu na obra.

No final, a personagem acaba mostrando que ainda não perdeu seu lado humano, mas que já aceitou sua condição, a criatura da noite que se tornou, como se depois de tantas crises existenciais ela finalmente tivesse percebido que não pertence ao reino de Deus, que as trevas são sua eterna moradia. E nisso podemos atribuir mais um ponto positivo a obra, que busca retratar a vampira como uma criatura provida de anseios e angustias existenciais, que tem em sua poderosa eternidade sua também amarga fraqueza, que tem em seu poder sua solidão e falta de pertencimento. Um ser marcado por seu contraste e dualidade, um ser noturno que busca a luz, um ser complexo e bem construído.

“Ode de Sangue: Memórias Vampirescas” é uma obra marcante e revigorante, uma leitura tão deliciosa quanto se deleitar a eternidade, Madalena é uma vampira que fez eu me lembrar o quanto beber sangue pode ser gostoso. Se você gosta da temática, essa é uma leitura obrigatória e se você ainda não leu nada dentro do gênero, essa é uma ótima porta de entrada.

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Aspirante a escritor, redator freelancer e roteirista nas horas vagas. Típico paulista, vaga de estação em estação procurando um pouco de si em cada lugar que visita. É campeão em maratona de séries e fã de carteirinha de autores como Neil Gaiman e Alan Moore, se considera um chato na maior parte do tempo, se perde em sua própria criatividade e ansiedade.

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28 comentários em “Ode de Sangue

  1. Olá! Nana aqui! Obrigada pela resenha, foi uma das mais lindas que li. Em especial por ter começado falando do grande Bram Stoker, que é o nosso grande criador do vampiro como a monstruosidade disfarçada de humanidade. Fico muito feliz!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Oi!

    A resenha ficou ótima!
    A capa é linda, o nome é chamativo e o tema é convidativo. Adoro histórias de vampiros desde que não sejam aterrorizantes hahaha

    Ah! E livros contados em primeira pessoa têm la o seu charme especial.

    Beijos
    Ler e Amar com a Dri

    Curtido por 1 pessoa

  3. AMEI!!!
    Sou totalmente apaixonada por vampiros e procuro algo novo pois como você disse, esse tema está saturado de repetições.
    Linda resenha e essa capa é maravilhosa!

    Beijinhos que estou com pressa para comprar o meu.
    Patricia
    Saberes Literários

    Curtido por 1 pessoa

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