Mulheres que não sabem chorar

Resenha – Mulheres que não sabem chorar

por: Caroline Moreira & Marina Rodrigues

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Sinopse: A vida de Marisa é regida pelo controle. Seja à frente do seu trabalho ou da vida dos filhos, ela é racional, mantendo-se sempre fria, um ser à parte das banalidades, cuja única preocupação é ser um exemplo. Olga é sua antítese. Sentimentos à flor da pele, dor flagelando a carne, pensamentos embaçados pelo esquecimento proporcionado pelo álcool. Sozinha, preocupa-se em apenas ser, em um mundo cercado por fatos que não reconhece mais como seus. Enquanto isso, Ana e Verônica esbarram com o acaso. Duas senhoras solitárias, vizinhas e antagônicas. Será que um dia alguém acharia que poderiam viver em paz? Mais ainda, será que poderiam se apaixonar? Duas jovens livres e independentes. O que as impede de ficar juntas? Mulheres que não sabem chorar é mais que uma história de amor entre iguais. Junto a estas personagens tão humanas, o leitor vê-se despido dos preconceitos, pudores e medos. Ora crua, ora poética, a trama nos obriga a enfrentar o espelho e se ver como nunca imaginou antes. Pois ao mergulhar neste romance, o que fará você pensar não é a forma como vê o amor, mas sim a forma com que ele se volta em sua direção. Esteja preparado. 

Número de páginas: 210
Onde encontrar? Saraiva
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Como vocês bem sabem, o Blog com V possui vários resenhistas. Então, nesse espírito de comunidade, decidimos trazer uma novidade para vocês! Eu (Mari) e a Caroline, decidimos ler o mesmo livro e resenhar juntas, ainda que não tenha as marcações sobre a opinião de cada uma, creio que vocês vão gostar.
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“Mulheres que não sabem chorar” foi uma daquelas leituras que nos encurrala e nos deixa atônitos, desde o prefácio escrito por distintas mulheres havia percebido o quão profundo e inquietante o livro seria. Nomeando cada capítulo com o nome de uma flor, sugere algo delicado e sereno, embora a história traga os espinhos da sina que é ser mulher em uma sociedade onde se perpetua a misoginia e o machismo.
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A capa chama muita atenção, diria até que chega a enfeitar com louvor a prateleira de qualquer aficionado por livros. Por dentro, as fontes, os desenhos que enfeitam cada capítulo, as orelhas, a folha de rosto, tudo é muito bonito e parece ter sido pensado nos mínimos detalhes, realmente é um livro completo e não deixa nada a desejar em quesitos editoriais. No fim do livro, além de um poema belíssimo de Lilian Farias, a própria autora, temos um glossário com o nome e o significado das plantas que ilustram cada capítulo. O interessante é o quanto o significado deixa a história ainda mais rica, simbólica e extremamente reflexiva. Todas as informações foram retiradas de A linguagem das flores, de Vanessa Diffenbaugh, onde há a presença do Dicionário Victoriano das flores.
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Munida de uma linguagem formal – mas formal de uma maneira que não interrompe o discorrer de palavras e o deixa incrivelmente mais rico – descrições adequadas e diálogos pertinentes, a autora criou um cenário onde a trama discorre sem problemas em relação ao fluxo. Contudo, no início dos capítulos não se menciona o narrador, e confesso que qualquer distração pode lhe deixar confuso, mas, logo que você se acostuma, consegue identificar nas primeiras linhas de que história o capítulo tratará. Para mim, a partir da página 50 foi possível manter um ritmo de leitura consistente, já que o enredo se desenvolvia de modo mais cativante, não que antes disso não houvesse sido interessante, e sim por ser uma narrativa complexa.
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Relatos de muitas mulheres estão presentes nas páginas, mas, geralmente, esses depoimentos surgem dentro do contexto, apropriados à história em um encaixe certeiro que nos prende em um emaranhado de vidas femininas, algumas somente perdidas dentro de si, já outras com questões que vão além do que podem compreender. Tem um quê de emponderamento, mas também funciona como um alerta, em suma, representa a literatura que todas as mulheres deveriam ter contato alguma vez.
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Porém, adianto: é uma leitura pesada, sem pudores nem censuras, tanto em relação ao sexo quanto às violências citadas, então, é preciso estar preparado para o impacto, pois são coisas que perturbam os nossos pensamentos e tocam no íntimo. Por isso, também é uma leitura emocionante, não se trata apenas de dores e cicatrizes, como também de cura e novas marcas. Lilian trabalha nesse material romance, perdão e novas chances, mas, acima de tudo, renova a esperança de cada mulher que tem um estigma no peito.
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O romance entre Marisa e Olga caracteriza-se como intenso e, também, secreto. Na casa dos cinquenta, ambas se relacionam às escondidas, um relacionamento curioso visto que Marisa é controladora e racional ao passo que Olga transborda sentimentos e tenta evitá-los através do álcool. As vizinhas que antes tinham uma relação conturbada, agora descobrem-se apaixonadas uma pela outra.
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Em contrapartida, temos a história de Ana e Verônica, duas pessoas de mundos opostos que se encontram por um acaso do destino. Verônica nos é apresentada no capítulo ‘‘Verbasco’’, que significa ‘‘tome coragem’’, sentimento que vai mover a personagem ao longo de toda a narrativa, diria até que é o que nos move a todas, então, fugindo de um encontro inesperado com seu pai e carrasco, Verônica senta em um banco de praça e Ana lhe oferece um copo d’água, o estopim para elas se conhecerem e desenvolverem uma relação intensa e conturbada.
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As histórias das quatro personagens, Marisa, Olga, Ana e Verônica, caminham paralelamente sem aparente relação, mas tem um ponto em comum extraordinário e completamente inesperado, embora não da maneira que imaginamos e de uma forma até mesmo indireta.
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Ainda que tenha sido arrematada pelo romance, notei uma problemática nele. Em uma passagem, há uma conversa entre Marisa e Olga em que certas afirmativas são feitas e das quais discordo. Ao discutirem sobre os efeitos do machismo, a personagem pensa que nem sempre o ônus maior é carregado pela mulher, sendo que ela é a mais prejudicada por tal comportamento. Assim, ela afirma que homens e mulheres são machistas e ambos sofrem com isso, porém, a mulher, ao contrário do homem, apenas reproduz o machismo. Se tiverem alguma dúvida sobre isso, é só clicar aqui.
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Encontrar isso em um livro que aborda essa temática me deixou um pouco chateada, admito, todavia, todos estamos em constante aprendizado e, por isso, não afetou muito o meu julgamento do livro. Claro, tudo é uma questão de opinião. E, embora eu ache que essa possa ser simplesmente a opinião de uma personagem machista como a Marisa e não a opinião da autora, não houve qualquer tentativa de conserto da afirmativa, ainda que a obra não seja moralista, mas uma exposição de realidades, histórias e vivências variadas, isso é algo que tínhamos a expectativa de que pudesse ser debatido e não apenas ter passado batido e que pode ser deturpado por algumas pessoas.
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Embora o enredo pareça tratar essencialmente dos casais, ele não consiste apenas nisso. Os assuntos explorados exigem que o leitor abandone os preconceitos que carrega consigo e absorva o conteúdo puro, cru e, por ser assim tão real, beira o poético por apresentar a existência humana e a sua forma de amar e desamar uns aos outros. Os personagens são densos e bem construídos, assim como as narrativas que os envolve, sendo, portanto, um livro impactante e complexo sobre o porquê as mulheres devem saber chorar.
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E você, sabe a importância que chorar tem?

MARI

 

Gosta de escrever na terceira pessoa, comer brigadeiro de colher e ler creepypasta de noite. Aprecia boa música, é uma cinéfila irremediável, leitora compulsiva e fã número um de uma boa xícara de café. Ariana, 21 anos, estudante de Medicina e não adepta de rótulos.

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carol eu

 

 

Dona de 18 primaveras. Feminista. Estudante de Pedagogia. Amante de MPB, animes, k-pop, doramas e uma boa xícara de café. Não vive sem livros, filmes ou maquiagem. É apaixonada por Fred Elboni e quer proteger todos os animais do mundo 🌸

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25 comentários em “Mulheres que não sabem chorar

  1. Oi

    Fiquei curiosa ara conhecer mais a fundo está história, mas eu também fiquei um pouco receosa.
    Eu amei a resenha de vocês e da maneira como descrevem cada ponto do livro.
    Parabéns pelo trabalho!

    Dri
    Ler e amar com a Dri

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  2. Olá!
    Esse livro é um tiro! Adorei a leitura dele que, embora seja pesada, também é bastante didática… Fiquei completamente apaixonada pela escrita da Lilian, assim como fui impactada pelos fatos e a forma que ela descreveu eles… Ruim pensar que, todos os dias, acontecem milhares de casos similares aos da Olga 😦

    Adorei a ideia de vocês, de fazer a resenha juntas! Ficou maravilhosa! Parabéns ❤
    Beijos.

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  3. Eu tenho um baita fetiche por títulos, sabia?! Se tivesse numa livraria qualquer e visse esse livro com certeza compraria só pelo título. kkk E me parece ser aquele tipo de história que diz várias verdades na nossa cara, o que gosto muito. Amei o post de vocês. Beijão meninas!

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  4. Ih, gente, parece um daqueles livros que te dá vários tapas na cara, eu amo livros assim hahaha.
    Já tinha lido sobre esse em algum lugar e havia me interessado, agora mais ainda.
    Parece tratar de assuntos que me interessam e de uma forma bastante apreciada por mim também: pesada. E concordo com vocês, a capa é linda!!!

    ourbravenewblog.weebly.com

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