Baladas proibidas

Resenha – Baladas proibidas

por: Marina Rodrigues

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Sinopse: Baladas proibidas conta a história real de um jovem do interior de São Paulo que descobriu o universo das raves e das drogas sintéticas, virou traficante e se tornou o Rei do Ecstasy. Em uma vida que desafia a passagem do tempo, dia e noite deixam de ser referências, o prazer parece não conhecer limites e tudo é muito rápido, alucinante e superlativo – drogas, álcool, festas, sexo, carrões e iates em meio a mortes, prisões e extorsões. Neste livro, o comércio de substâncias proibidas não é aquele que interrompe a tiros a paz ilusória de nossas cidades ou que nos choca, à distância, pelos jornais e pela TV. Gabriel Godoy, o protagonista que relata sua história ao jornalista e escritor Bolívar Torres, poderia ser nosso filho, ou um primo ou sobrinho nosso, morador do subúrbio ou do interior. 

Número de páginas: 210
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Confesso, essa foi uma das resenhas mais difíceis de escrever, esse livro mexe com a gente, ele é nu, cru, palpável, eu fiquei dias impactada com a leitura e sem uma opinião específica para contar para vocês, era apenas uma onda de vários sentimentos que precisavam ser postos no papel, mas eu não sabia como. O livro foi cedido pela nossa parceria com a Editora Record, que nos manda um catálogo de lançamentos e escolhemos dentre as várias opções, mas esse me chamou a atenção logo de cara, a capa com sua vibe adolescente de luzes Neon ao estilo de Nerve (filme inspirado em um livro de Jeanne Ryan e que você pode encontrar no Netflix, recomendo altamente), sua sinopse incrível, mas, acima de tudo,  ser baseado em fatos, eu peguei sem nem olhar direito as outras opções, já esperando que fosse encontrar uma versão brasileira de Eu, Christiane F. 13 anos, drogada, prostituída; mas não foi bem com isso que me deparei.

Gabriel Godoy, o Rei do Ecstasy, escreveu esse livro com a ajuda do jornalista Bolívar Torres, com quem compartilhou o manuscrito original e algumas memórias para enriquecer a estória, assim, o livro alterna, poucas vezes de fato, entre primeira e terceira pessoa, mas predomina na primeira, enriquecendo demais a narrativa. O que mais me prendeu, além da estória surpreendente, foi a escrita do Gabriel, ela é atual, despreocupada, ele usa a linguagem informal, cheio de gírias, é sensacional, ainda mais por ser a linguagem do meio que estamos inseridos e do dia a dia, isso deixa tudo muito fluido. O livro é um pouquinho grande e tem páginas largas, mas eu li em uma tarde, de tão imersa que fiquei, lembro que vivia virando para o lado e falando alguma curiosidade do livro para quem estivesse do lado ou então fazia caras e bocas enquanto lia, as pessoas ao meu redor se interessavam pelo livro também, tamanha era a forma que eu não conseguia disfarçar meus sentimentos durante a leitura.

A estória é dividida em duas partes. A primeira parte é a vida mais ‘’glamorosa’’ do tráfico, um mundo novo para o personagem, seu deslumbramento; já a segunda parte é uma forma de ‘’ressaca’’, o choque, o lado sombrio e sua redenção. Claro, o nome de alguns personagens, com exceção do próprio Gabriel, algumas datas e até mesmo o nome da droga fabricada por ele foram trocados para preservar a identidade de terceiros. O relato parece um filme, um que nem a ficção poderia imaginar, é um retrato, e recente, que choca por ser palpável e revelar uma sociedade velada que se ‘’esconde’’ bem debaixo dos nossos narizes — ou fechamos os olhos e nos recusamos a ver — pois, como a resenha pontua muito bem: ele poderia ser nosso irmão, filho, primo, amigo e eu não sei até que ponto eu mesma estaria imune a essa realidade.

Gabriel Godoy nasceu numa cidade pequena, com 20 mil habitantes, chamada Serra Negra, no interior de São Paulo. Mas, enquanto crescia, sentia que a cidade era pequena demais para ele e, aos 18 anos, depois de falhar em tentar organizar uma festa grande e perder seus investimentos por causa da concorrência, foi para São Paulo tentar a sorte. Ficou assustado com a cidade grande e, como era verão, decidiu ir ao litoral, pensou no Rio de Janeiro, mas seu dinheiro lhe rendeu apenas uma passagem para Maresias. Sua primeira parada, ao passar da estação por dormir no ônibus — por força do Destino ou não — foi Paúba, a parada seguinte, que foi onde ficou por alguns meses e conseguiu um emprego como garçom. Depois de algum tempo largou tudo para ir a Maresias, onde conheceu Lucca, o administrador do aluguel dos chalés em que Gabriel passou a morar. Lucca era promoter de uma casa noturna no litoral e Gabriel já estava ganhando quase cinco mil reais por mês no ramo de garçom quando Lucca o apresentou para o ramo de vendas de drogas sintéticas.

Entre idas e vindas e muitas estórias em Maresias, Gabriel tinha mais ambição que Lucca e logo decidiu largar de vez o emprego — nessa época ele descobriu que poderia ganhar mais em uma semana só se divertindo em festas do que trabalhando de carteira assinada o mês inteiro — a temporada no litoral acabou, e, no inverno, as vendas diminuíram e ele percebeu que as festas apenas mudavam de lugar, assim, ele viajou para Campos do Jordão e continuou com essa vida, descobriu que a mesma galera também migrara para lá e não teve dificuldade em se enturmar e encontrar clientes. Depois disso, as vendas foram só subindo e ele decidiu investir e arranjar um lugar para morar em São Paulo e expandir o negócio.

Agora pense em tudo que você já viu ou soube sobre traficantes pela TV ou por qualquer outro meio de comunicação; nos caras barra pesada; boca de fumo; cracolândia; favela; policia invadindo o morro do Rio de Janeiro e o tráfico botando banca pesada nos caras e matando criança com bala perdida; em gente feia, mal vestida, sem dente, maltrapilha e viciada, pedindo dinheiro na rua e morando debaixo da ponte. Pensou em tudo isso e tudo que você já viu sobre esse tipo de traficante? Quer saber por que esse livro choca? Agora pense em baladas luxuosas; gente bonita, elegante, ‘’de berço’’, filho de empresário, político; álcool, garrafas de Chandon; roupa de marca; viagens para Miami. Pensou? Esse é o meio que Gabriel frequentava para vender doce, bala, lança perfume, baladas com ingressos de duzentos reais e frequentada por pessoas que poderiam muito bem ser nossas amigas, parentes ou até nós mesmos, como falei antes.

De Sampa, Gabriel deslanchou, arrumou cada vez mais contatos, encontrou fornecedores que lhe vendiam mais barato e em maior quantidade e popularizou a droga nas baladas, não é à toa o subtítulo do livro. Foi então que encontrou Duda e Tiozão, dois policiais que entraram no negócio e tornaram tudo mais fácil; Duda era de menor patente e foi quem ele conheceu primeiro, ele protegia Gabriel das carteiradas e o deixava passar imune pela segurança das baladas e até por Blitz. Já Tiozão mudou a ‘’alma’’ do negócio, o cara era barra pesada e tinha uma patente mais alta que Duda, protegia Godoy e ainda fornecia drogas apreendidas pela policia e de qualidade alta. Na verdade, as pílulas de Tiozão não eram apreendidas, mas o fruto de um acordo da policia com Doutor T, o maior exportador do conteúdo e que tinha um acordo com os policiais de passe livre em troca de uma porcentagem dos lucros, que Tiozão pegava sua parte em mercadorias e possuía um estoque de milhares de doces parados e que, com a ajuda de Rei do Ecstasy, transformou em algo extremamente lucrativo.

Já com apoio no negócio, produto de qualidade, proteção e clientela fiel, Godoy sofreu um baque na carreira ao perder contato com Gordinho, seu traficante principal, não conseguiu mais encontrar nada de qualidade e o estoque do Tiozão estava acabando, foi quando tudo deu uma reviravolta. Gabriel foi ao Paraguay com a namorada e veio de lá com uma máquina para fabricar Ecstasy e LSD, a primeira fabricação não havia sido boa e havia sido feita com pasta base de cocaína, não o MDMA, então era uma espécie de droga pirata e que não batia a mesma liga, então a ideia havia sido posta um pouco de lado. Então, depois da crise com o Gordinho, eles contrataram um químico, conseguiram a matéria prima MDMA e lançaram a própria marca.

Entre esse meio termo, nosso protagonista foi preso e levado para Garulhos II e trancafiado com gente barra pesada de verdade, traficante de favela, assassinos, ‘’gente grande’’. Numa prisão onde não havia nada para fazer e os presos passavam o dia fumando maconha para passar o tempo ou cheirando cocaína, Godoy apresentou uma ‘‘onda’’ diferente, começou a vender a droga sintética, coisa que os caras não conheciam, e logo entrou para o topo da cadeia alimentar daquele presídio e virou amigo pessoal dos barra pesada e passou a possuir um dos status mais altos de lá. O que era para ser uma punição, só fez ele ser solto com mais dinheiro, mais contatos e com a denominação de Rei do Ecstasy, aí que tudo engatilhou.

São muitas memórias, muitas estórias e essas são poucas dentro do mar de coisas que você vai encontrar no livro. Esse é só um resumo da estória do Gabriel. E você quer saber como termina? Isso só o final do livro vai te contar, mas eu posso te adiantar que hoje ele tem um canal no Youtube chamado Trilhando outro caminho’’, em que atua na prevenção ao vício das drogas e suas consequências, e mostra que é possível a reinserção social de ex-criminosos. Também é palestrante e empresário. Seu instituto é uma associação privada e sem fins lucrativos que nasceu para se dedicar às causas sociais com ações junto a pessoas que desejam deixar para trás o universo das drogas, proporcionando melhorias de vida para a população em geral. Em junho de 2017 abrirá uma sede na cidade natal de Gabriel, Serra Negra, lá vão disponibilizar cursos de especialização totalmente gratuitos para até 100 pessoas por formação, além de aulas de artes marciais, doação de cestas básicas e também uma clínica de reabilitação onde vão atender até 60 pessoas por demanda de tratamento, tudo isso será financiado por empresas parceiras.

Não recomendo esse livro para pessoas menores de 16 anos e pessoas que tenham a mente muito fraca ou não aberta, não faz apologia, mas o assunto é bem forte e real. Mas recomendo esse livro enormemente para todo o resto, pessoas que gostam de histórias boas, fortes e reais. O livro é fantástico, da sua própria maneira, claro. Vocês precisam conhecer a estória de Gabriel Godoy, hoje ex Rei do Ecstasy.

MARI

Gosta de escrever na terceira pessoa, comer brigadeiro de colher e ler creepypasta de noite. Aprecia boa música, é uma cinéfila irremediável, leitora compulsiva e fã número um de uma boa xícara de café. Ariana, 21 anos, estudante de Medicina e não adepta de rótulos.

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34 comentários em “Baladas proibidas

  1. Olá, Marina!
    Não gostei da capa, não! Mas também me lembrou o filme Nerve e achei engraçado você citar ele.
    Assim como sua resenha foi difícil de ser feita, meu comentário também será.
    Veja bem: Mesmo o livro tendo uma história bem profunda e com muito mais conteúdo, seu resumo sobre o início foi muito extenso e muito revelador.
    Tanto que eu fiquei surpresa de não ter o final, porque era como se fosse um resumão do filme e não uma resenha sobre ele.
    A única coisa que gostei sobre a história dele, foi a parte em que você disse que ele após ter saído do crime, tem um canal no youtube onde mostra que é possível a reinserção social de ex-criminosos. Essa parte foi a única que me interessou. Porque na verdade, o livro me lembrou a história da Bruna Surfistinha. completamente desnecessária e sem beleza.
    Sem nada de relevante e digno para mostrar. Eu não curto muito histórias da vida real, principalmente quando há um enriquecimento ilícito ou um motivo bobo para alguém se enveredar no mundo da prostituição ou das drogas.
    Não que a pobreza, a fome e ou a miséria seja uma justificativa para tal, mas quando alguém realmente não precisa disso, mas escolhe esse caminho é algo completamente irrelevante para mim.Como foi o caso dele que etsava ganhando bem como garçom e o da Bruna, que tinha uma família rica.
    Se o Gabriel ao sair da prisão conseguiu manter-se como empresário e youtuber sem o recurso financeiro do que conseguiu com a venda das drogas, tiro meu chapéu para ele.
    Contudo, assim como li “O Doce Veneno do escorpião” para poder dar minha opinião sobre ele, leria esse livro do Gabriel Godoy para ver se minhas perspectivas sobre o livro se alteram, ou permanecem.
    Fiquei muito a fim de comprar o livro e fazer uma resenha no blog embasada em psicologia jurídica, mais precisamente no exame criminológico. Porque o exame criminológico, é aquele realizado para identificar se o indivíduo comete crime, tem facilidade de reincidir no crime ou não.
    Inclusive o exame criminológico andou um tempo sendo vetado, porque, um laudo sobre a possibilidade ou não de um sujeito voltar a cometer crimes é algo impossível de ser feito. Embora ainda seja feito.
    Enfim… Por outro lado, eu entendo que uma vida com todo esse “glamour” é um convite tentador para os jovens. Baladas, sexo, festas, drogas, gente bonita, dinheiro, viagens… Fico feliz que isso não encha meus olhos. Nada compra minha paz! Só desconto de livro e o sorriso do crush! rsrs
    Não querendo ser contraditória, mas posso falar? Não posso ser hipócrita… quem nunca pensou em fazer uma loucura, não é? É tudo muito difícil! Alcançar seus objetivos e sonhos está ficando cada vez mais complicado. Portanto, quem nunca se quer cogitou a possibilidade de ir pelo caminho mais fácil, que atire a primeira pedra. Caminho mais fácil? A prostituição e as drogas são caminhos fáceis? Acho que não. São caminhos difíceis para quem os escolhe. São enganosos. Nos elevam e suprem certas necessidades, mas depois nos destroem e nos deixam sem nada.
    Enfim… Parabéns pela parceria! Desculpe o textão!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eliziane, tudo bem? Aqui quem escreve é o Gabriel. Autor do livro. Como comentei abaixo, não costumo responder resenhas, mas aproveito aqui para dizer algumas palavrinhas.

      Duas coisas:
      Quando sai da prisão em 2009, infelizmente voltei para vida do crime. Não conhecia Youtube, muito menos tinha desejo de ser empresário. Abandonei o mundo das drogas em 2012, mas só fui largar o universo das festas em 2014 Quando tive um encontro com Deus e larguei tudo por Amor a Cristo. E SIM, abri mão do pouco dinheiro que me restava do crime. Recomecei minha vida e desde então tenho me dedicado a causas sociais.

      Aproveito e comento sobre seu ponto de vista referente a psicologia jurídica. Posso garantir que na prática não funciona muito bem. So larga o crime quem tem oportunidade. Não adianta estudar o carater da pessoa, quando na prática ela não tem oportunidade para mudar. Oque funciona é aplicar a detentos “oportunidades” estudo, cursos e emprego.

      Mas valeu o papo. Fico a disposição para qualquer diálogo.
      Segue meu email: construmaxg@gmail.com

      Abraços que Deus te abençoo.
      Gabriel Godoy.

      Curtido por 1 pessoa

    2. Oi, Eli! Você apontou muitas coisas, e desculpo o textão sim hahaha Compreendo o que quis dizer, mas embora pareça desinteressante para você, o livro consegue ser bem chocante e real, o que é algo que realmente me atrai. E sobre o que você mencionou de comprar e fazer embasada na psicologia jurídica: apoio totalmente! Seria muito interessante 😀 E obrigada por opinar, foi muito bacana ter um comentário assim por aqui 😀

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  2. Uau!
    Fiquei de boca aberta com sua resenha, muito impactante. Imagina o livro! Livros que são baseados em fatos reais e tratam de assuntos tão pesados quanto o tráfico, nos deixam com uma sensação de choqur por muito tempo mesmo.
    Beijos e parabéns pela resenha, apesar de ser difícil você conseguiu fazê-la bem e deu a mim um gostinho do livro.

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  3. Oi Carol, tudo bem?
    Gente eu fiquei perplexa com esse livro! Fala assim nu e cru sobre o tráfico? Achei legal também ele ter a preocupação de usar a linguagem atual e com gírias, acho que isso enriquece a obra e facilita muito o entendimento. Gostei de saber que o livro mescla entre narrativas em primeira e terceira pessoa, isso mostra a adaptabilidade de escrever de múltiplas formas que o autor possui. No mais achei o livro bem interessante, acho que vou dar uma chance a ele.

    beijinhos!
    http://leiturize-se.blogspot.com.br/

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  4. Oi Mari!
    Estou assim com um livro também, vai ser uma das resenhas mais difíceis para mim. Quando o livro mexe muito com a gente, é difícil de colocar no papel.
    Sua resenha ficou maravilhosa e chamou minha atenção. Gosto de leituras fortes, densas e que são baseadas em fatos reais.
    Imagino todo turbilhão de sentimentos que você passou com essa leitura.
    Vai para minha lista.

    bjs
    Fernanda
    http://condutaliteraria.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

  5. Que resenha maravilhosa.
    A capa realmente é muito chamativa, assim como a sinopse.
    Como você citou, certamente é um livro que mexe com o psicológico por tratar de um assunto tão pesado e que pode ocorrer em todas as famílias.
    Vai para minha lista de livros para ler.

    Beijinhos

    Curtido por 1 pessoa

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