Minhas Conversas com o Diabo

Resenha – Minhas Conversas com o Diabo

por: Marina Rodrigues

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Sinopse: […] Do mesmo autor de “A terra por onde caminho”, “Minhas conversas com o diabo”, de Mário Bentes, reúne uma coletânea de contos onde tais potestades da terra e do ar encontram-se com seres humanos que, ao contrário dos reis e de outros homens de poder, almejavam coisas simples: reconhecimento profissional, rever um familiar desaparecido ou ter uma nova chance pelo amor. Mas os saberes arcanos, repassados pelos caídos, têm seu preço: seja ele em peso de ouro, prata ou carne. E, cedo ou tarde, eles voltam para cobrar a conta. 

Número de páginas: 168
Onde encontrar? Lendari
barraEsse é o livro que abre nossa parceria com a Editora Lendari no ano de 2017 e, acima de tudo, uma parceria que entrou já com o pé direito! A obra é assinada pelo Mário Bentes, que já deu as caras em antologias como O corvo: um livro colaborativo e Desnamorados da Editora Empíreo, entre outras várias outras, além de ter sido organizador das antologias Quando a selva sussurra: contos amazônicos e O último Gargalo de Gaia: distopias, steampunk e dias finais da própria editora Lendari e também ser autor do livro A terra por onde caminho, lançado em 2012.                               barra
O livro é o primeiro volume, confesso que fiquei triste ao terminar e perceber que ainda ia ter que esperar por outro lançamento, pois minha vontade era devorar o próximo imediatamente! Mas, para acalmar a minha ansiedade em relação a essa merecida continuação, fico feliz que seja um livro de contos e não um romance, assim, a cada novo conto, uma tensão diferente é construída e eles não são continuações um do outro, algo extremamente bem-vindo, porque nos mantém grudados até as últimas páginas e possui uma linearidade de início, meio e fim, ainda mantendo uma sensação de que estamos sempre no clímax da leitura.
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Um ponto curioso é a obra ser inspirada no rei Salomão (Aquele mesmo da passagem bíblica 1 Reis 3:3-28; 4:29-34, que ordena que cortem uma criança ao meio quando duas mulheres reclamam a maternidade), por causa das lendas de que ele invocava demônios e que os catalogou no livro Lemegeton Clavicula Salomonis Regis, datado do século XVII e que ganhou sua versão inglesa em 1904 com a tradução The Goetia: The Lesser Key of Solomon the King e que ganhou sua segunda publicação em 1995 com prefácio do ocultista Aleister Crowley, o guia e influenciador de Raul Seixas. O livro seria um compilado de textos atribuídos ao Rei e que ensinam a conjurar demônios do Inferno para obter respostas ou fazer pedidos, a obra ainda lista os 72 demônios conjurados por Salomão e os classifica em vários grupos de acordo com seus títulos de nobreza; reis, príncipes, duques, marqueses, condes, cavaleiros e presidentes e apresenta os sabres dos mencionados em filosofia, astrologia, astronomia, ervas, plantas, poções, venenos e até em como obter amor.
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Antes de qualquer coisa, precisamos desmistificar o conteúdo e a capa do livro para poder banir os preconceitos em relação ao choque que pode ser ter ele em mãos pela primeira vez. Sim, minha mãe me pegou lendo o livro, olhou a capa e disse ‘‘Cruzes’’, depois minha vó passou e se benzeu, pausa dramática. Ainda na pausa. Ainda. Continuamos em pausa. Parou. Muito bem embasada na mitologia judaico-cristã, a história é basicamente um paralelo entre os demônios como figura do Mal em si e uma alusão aos nossos demônios interiores e angustias. Nesse quesito, tudo é muito bem pautado, o livro não foca apenas na construção da figura mitológica, mas principalmente no cotidiano e desenrolar da vida humana em seus diversos aspectos, antes de tudo é um livro reflexivo e filosófico, está longe de ser um livro de Terror.

Suas 168 páginas o torna um livro bem rápido de se ler e ele se divide em sete contos: ‘‘Eu corrompi homens santos’’, ‘‘Topa um acordo, menino?’’, ‘‘Esquecer de viver’’, ‘‘A mulher que me amou’’, ‘‘À espera da próxima carta’’, ‘‘A mulher da capa de couro’’, ‘‘Diga-me tu, filho do homem: qual teu sonho?’’. O primeiro conto conta sobre um padre que vem tendo sonhos muito estranhos e que acredita ser um teste da sua fé, esse foi o conto que mais gostei e o que me deixou mais chocada, o final é extasiante e inesperado, foi aí que fui irremediavelmente arrastada pelo resto das páginas para descobrir até que ponto a genialidade de Mário iria se mostrar. E se mostrou, o segundo conto fala sobre um menino que foi abandonado pelo pai sozinho com a mãe aos cinco anos de idade e que, cinco anos depois, seu maior desejo ainda é o encontrar.

O terceiro conto nos apresenta Maria, uma mãe solteira que vive com as duas tias já velhinhas e que percebe que se esqueceu de viver, até que uma estranha aparição do que parece ser um palhaço a faz questionar até que ponto ela iria para conseguir o que deseja. Depois, conhecemos Bartolomeu e Estefânia, duas crianças de cinco anos que enterram uma mala e combinam de se encontrar novamente naquele lugar dali a cinquenta anos. O quinto conto nos apresenta o cotidiano de uma mulher que tem uma vida pacata e repetitiva, até que começa a trocar correspondências estranhas com um desconhecido que coloca as cartas por debaixo de sua porta. Mais adiante também conhecemos um casal recém-casado que resolve ir até as terras do Norte em busca de Ouro e de uma vida melhor, mas não é bem isso que encontram. A última história nos conta sobre um escritor que tem que escolher se vai pagar o preço para ter seu sonho realizado e publicar seu livro de sucesso.

A coordenação editorial, a revisão, o projeto gráfico, a diagramação, a capa e as ilustrações casaram perfeitamente com a obra. Tudo se encaixou em seu devido lugar e me deixou com aquela sensação boa de quando você pega um livro todo bem trabalhado e depois o guarda com orgulho em sua prateleira e torce para ele não amarelar nunca. Nesse sentido, a escrita de Bentes é fluida, simples e envolvente, amei perceber as nuances do livro. Ah, para quem ficou na curiosidade, o demônio da capa é o Buer, presidente na hierarquia, seus conhecimentos são na área de Medicina e Filosofia Moral e Lógica, acho que por isso a escolha da ilustração e, por falar em ilustrações, o livro conta com algumas do Mr. Crowley (Fãs de Ozzy Osbourne entenderão).

Recomendo esse livro não só pelo seu teor filosófico e reflexivo, mas em prol da valorização da literatura da Região Norte do país, que possui expoentes extremamente expressivos, como o próprio Milton Hatoum também de Manaus, e são coisas como essa que realmente valem a pena conhecer.

MARI

 

Gosta de escrever na terceira pessoa, comer brigadeiro de colher e ler creepypasta de noite. Aprecia boa música, é uma cinéfila irremediável, leitora compulsiva e fã número um de uma boa xícara de café. Ariana, 21 anos, estudante de Medicina e não adepta de rótulos.

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44 comentários em “Minhas Conversas com o Diabo

  1. Adorei as referências que vc trouxe! Ficaram ótimas e enriqueceram bastante o conteúdo 😉
    E ri alto com a pausa dramática hahaha
    É uma obra bem diferente e sua resenha tirou mesmo o preconceito da capa!

    osenhordoslivrosblog.wordpress.com

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