Em águas sombrias × O casal que mora ao lado

por: Caroline Moreira

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Sinopse: Nos dias que antecederam sua morte, Nel ligou para a irmã. Jules não atendeu o telefone e simplesmente ignorou seu apelo por ajuda. Agora Nel está morta. Dizem que ela se suicidou. E Jules foi obrigada a voltar ao único lugar do qual achou que havia escapado para sempre para cuidar da filha adolescente que a irmã deixou para trás. Mas Jules está com medo. Com um medo visceral. De seu passado há muito enterrado, da velha Casa do Moinho, de saber que Nel jamais teria se jogado para a morte. E, acima de tudo, ela está com medo do rio, e do trecho que todos chamam de Poço dos Afogamentos… […]

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Sinopse: É o aniversário de Graham, e sua esposa, Cynthia, convida os vizinhos, Anne e Marco Conti, para um jantar. Marco acha que isso será bom para a esposa, afinal, ela quase nunca sai de casa desde o nascimento de Cora e da depressão pós-parto. Porém, Cynthia pediu que não levassem a filha. Ela simplesmente não suporta crianças chorando. Marco garante que a bebê vai ficar bem dormindo em seu berço. Afinal, eles moram na casa ao lado. Podem levar a babá eletrônica e se revezar para dar uma olhada na filha. Tudo vai dar certo. Porém, ao voltarem para a casa, a porta da frente está aberta e Cora desapareceu. Logo o rapto da filha faz Anne e Marco se envolverem em uma teia de mentiras, que traz à tona segredos aterradores.

Hoje, resolvi trazer um post um pouco diferente do que comumente trago aqui no Blog, fiz uma comparação entre os dois thrillers psicológicos mais desejados: O casal que mora ao lado e Em águas sombrias. A motivação para um post como esse foi o fato de que apesar de pertencerem ao mesmo gênero, eles me transmitiram sensações bastante díspares e com características amplamente divergentes.

Acerca da premissa, acredito que este seja o único aspecto em que pude chegar a um denominador comum: a ideia-núcleo em que se baseia o enredo é instigante e nas duas narrativas senti-me curiosa a despeito da história presente no livro. Contudo, o desenvolvimento de Paula Hawkins se mostrou mais complexo e denso do que o de Shari Lapena, no entanto, atribuo isso à experiência visto que este é o seu thriller de estreia e  embora Hawkins tenha conquistado muitos leitores com A garota no trem, ela também mencionou em uma entrevista sobre o treino que lhe ofereceram: “Desenvolvimento de enredo, construção de personagens, ter a sensação da dimensão de um livro, essas coisas. Foi útil.”, por isso, quando abordamos essa noção mais aprofundada de como discorrer sobre o livro, fica claro que Paula teve bastante suporte e estudo de técnica, o que talvez não tenha sido concebido da mesma forma para Shari.

Ninguém gostava de pensar que a água daquele rio era infectada com o sangue e a bile de mulheres perseguidas, de mulheres infelizes; eles a bebiam todos os dias. (Em águas sombrias)

Para ser sincera, esperava menos de “Em águas sombrias” e mais de “O casal que mora ao lado”, isso porque a sinopse havia me cativado mais de certo modo, estava ansiosa para descobrir como esse assunto progrediria, afinal, o fato de que a bebê fora sequestrada enquanto os seus pais estavam na casa ao lado é, de fato, intrigante. Porém, a narração em terceira pessoa, a meu ver, não trouxe pontos positivos já que praticamente nos é entregue toda a situação e o culpado no meio da história e continuamos até o fim do livro para que os outros personagens descubram o que está realmente acontecendo. Sem mencionar que a forma que a autora dispôs as observações de quem investigava e os pensamentos dos personagens nos entregavam quem era o responsável por isso. Por fim, as explicações dadas não me convenceram de forma alguma, sabe quando constroem um mistério e fornecem uma motivação fraca ou pouco palpável? Foi o que aconteceu aqui. Ela estendeu muito o suspense, nos entregou o culpado e nos apresentou uma explicação rasa e pouco concreta. Para um thriller em que juntamente com o título, lê-se: “As pessoas são capazes de qualquer coisa”, eu esperava um pouco mais. Bem mais.

Em contrapartida, Paula nos mostra um desenvolvimento absolutamente impecável, enquanto o outro livro era arrastado, esse eu literalmente devorei! Com uma narração que oscilava entre primeira e terceira pessoa, o texto não ficou confuso e ela soube aproveitar, fazendo com que sua obra tivesse dinamicidade e também nos fornecesse sempre questões interessantes e necessárias. Logo que eu recebi o livro, vi muita gente reclamando a respeito dos milhares pontos de vista, confesso que essa foi a razão de adiar a leitura. No entanto, ela trabalha com maestria e conforme você compreende o papel de cada um, os pontos de vista se alternando é como uma teia de mistérios, um quebra-cabeça, onde qualquer um pode e parece ser o culpado. Creio que isso acrescentou muito ao mistério, embora tentasse encontrar um suspeito e até chegar próximo dele, eu fui surpreendida literalmente até a última página.

Se tem algo que Rasbach aprendeu durante os anos na polícia é que as pessoas são capazes de qualquer coisa. (O casal que mora ao lado)

Um dos pontos positivos de Shari em seu livro foi como ele conseguiu trazer uma discussão sobre depressão pós-parto e transtorno dissociativo. Pelo que pude absorver do livro, Anne tem a amnésia dissociativa, que geralmente se faz presente durante um evento traumático ou perdas inesperadas, em que o indivíduo simplesmente adquire uma lacuna entre os acontecimentos, o que a faz duvidar de suas ações no decorrer da narrativa. Além de que a sua depressão pós-parto lhe faz parecer ainda mais suspeita, devido às mães que mataram os seus filhos, ainda que isso se encaixe melhor na psicose pós-parto. Foram questões que nos mostram como a maternidade nem sempre é somente bela, que ser mãe é uma tarefa que exige muito e nem todas as mulheres conseguem lidar com o fardo.

No livro de Paula, não temos assuntos assim, mas percebemos um debate em todo o livro já que Nel Abott, que morreu de forma misteriosa e deixando muitas perguntas, afirma que “Beckford é um local para se livrar de mulheres encrenqueiras”. Durante todo o desenvolvimento, percebemos que isso se mostra cada vez mais real, porém, o significado de mulheres encrenqueiras pode ser compreendido de muitas formas. A autora é genial e nos mostra como o patriarcado trata as mulheres e de como a misoginia está infiltrada em nosso cotidiano, mas não era de se esperar menos de Hawkins que em seu outro thriller, A garota no trem, traz à tona a violência social que cerca o universo feminino. Em sua entrevista, ela diz “Interesso-me pelas vidas de mulheres, o lugar das mulheres na sociedade, o modo como a sociedade as trata e a maneira como as mulheres se tratam umas às outras. Essas coisas são importantes para mim e levo esses assuntos para os meus livros. E as minhas personagens principais são mulheres porque me parece natural explorar as vidas das mulheres. E acho que há um grande desejo por isso, afinal a maioria dos leitores deste tipo de livros são mulheres. Não estou com isto dizendo que escrevo livros para mulheres, mas faz parte de mim enquanto mulher tentar entender essas vidas e os desafios a que estão sujeitas.”

Eu a amava. Nenhum de vocês parece entender o que isso significa, é como se vocês não tivessem a menor ideia do que é amor. (Em águas sombrias)

Outro ponto que obteve um contraste entre as duas leituras foi a construção dos personagens, não que Shari não soube criar personalidades fortes, Cynthia para mim foi o grande destaque da trama de O casal que mora ao lado, ela era ousada mas também inteligente, o que a tornava bastante perigosa e fazia com que o enredo se movimentasse de um modo mais interessante por causa de seu papel na narrativa. Entretanto, os demais constituintes da obra não pareciam densos e embora fosse na terceira pessoa, ela poderia ter transmitido mais a individualidade de cada um nos pensamentos e nas falas, já que às vezes eles me passavam uma sensação de serem muito similares uns aos outros e “mornos” demais em uma premissa que exigia personagens mais aquecedores e marcantes. O distanciamento para com os personagens foi tanta que eu mal pude me afeiçoar ou detestar alguém, não havia conexão entre mim e eles – era como se eu não tivesse mergulhado de fato na leitura.

A despeito do trabalho de Hawkins nesse aspecto, confesso que eu me surpreendi positivamente. Dentre tantos personagens apresentados e com distintos pontos de vistas, ela conseguiu nos mostrar diferentes pessoas, pessoas reais carregadas de motivações e sentimentos reais. A linguagem usada para um personagem x é totalmente diferente da que é utilizada para o personagem y, além de que todos eles são muito mais do que podemos enxergar em uma fração de capítulo. A cada vez que é intercalado um ponto de vista, é como se estivéssemos abrindo outra camada até chegar ao âmago de todos eles. Talvez eu não consiga decidir quem me encantou mais, porém eu me identifiquei muito com a Lena e considerei muito interessante a trajetória e a evolução de Jules no decorrer do livro. Não foi como na história de Shari em que já sabíamos de quem suspeitar, pois a cada página virada eu já não sabia mais o que Paula estava planejando. Era como se todos os personagens pudessem ser culpados, todos tinham seus defeitos bem como suas qualidades, eram personalidades palpáveis e frágeis, e sendo assim, humanas.

A tensão que ele detectou assim que chegou ali se transformou em algo mais: culpa. (O casal que mora ao lado)

Para falar sobre o desfecho, é natural abordar sobre expectativas e admito que a minha opinião pode estar bastante vinculada ao que esperava de ambos os livros. Por ter escutado muitas críticas positivas de O casal que mora ao lado, evidentemente fui influenciada a acreditar que era algo extraordinário, o que fez com que eu alimentasse muitas esperanças a algo que a autora não conseguiu suprir. Por outro lado, adiei a leitura de Em águas sombrias porque tudo o que eu vi a respeito dele foram que era confuso e que havia tantos pontos de vista que alguns nem se atreveriam a ler porque sabiam que não valia à pena. Admito que eu fiquei receosa porque pensei que teria dificuldades e não conseguiria compreender o rumo da história, por isso, engavetei a leitura. Imaginem qual não foi a minha surpresa ao passar três ou quatro pontos de vista e perceber que o quebra-cabeça já estava com suas primeiras peças sendo montadas e que não havia confusão alguma? Realmente passei por aquela situação “eu deveria ter lido antes!”.

O que mais me entristeceu sobre O casal que mora ao lado não foi o fato de que os personagens não tinham singularidade ou de que ela poderia ter conduzido o enredo de forma mais eficiente e sim que o desfecho em si não me proporcionou nada além de uma leitura tediosa. Com a maioria das respostas entregues de cara lá pela metade do livro e algumas reviravoltas que são previsíveis, praticamente metade do livro é enrolação. Portanto, quando o livro foi finalizado não teve aquele “nossa, acabou” ao invés disso, pensei “finalmente acabou”. Isso porque eu não aguentava mais. Eu sabia quem era o culpado. Eu sabia o que estava acontecendo. E da metade para frente a gente só vai predizendo a descoberta dos outros personagens, então, não foi um bom desfecho. Foi como se aquilo não fosse um fim. O mistério não me provocou vontade de ler sem parar, pelo contrário, eu já sabia tudo: então para que ler até o fim? Mas eu li. E, sinceramente, para mim esse foi o maior erro da escritora, pois arrancou do leitor a ansiedade pela próxima página e a meu ver, isso é fundamental, sobretudo em um thriller psicológico.

Já no outro thriller, de fato, a surpresa foi até a última página e ainda estou digerindo isso. É como se Paula Hawkins brincasse e jogasse com você o tempo todo, ela lhe entrega pistas e você pode se divertir como um detetive tentando colocar as informações no lugar e desvendar o mistério. Porém ela está sempre um passo a frente de você. Isso fez com que o desfecho fosse um final daqueles que, pelo menos para mim, foi inesperado e fez com que a autora ganhasse mérito por ter desenvolvido magistralmente a trama sem furos ou falhas. Considerando que todo o suspense gira em torno do rio e das mortes relacionadas a ele, isso é fantástico! Porque eu não depositei muita expectativa na sinopse e sequer li comentários bons, então quando eu finalizei e desejei mais e ao mesmo tempo fiquei sem saber o que fazer, pude compreender como ela foi impecável em todo o livro, em praticamente todos os aspectos. Li em alguma entrevista da Shari que ela joga com a culpa, eu não acredito nisso, quem faz isso é Paula Hawkins, ao menos, com sucesso.

Em vista disso, quero que saibam que não estou querendo levantar uma autora e derrubar outra, mas eu tinha que opinar, ainda mais ao notar que parece que ninguém concordou comigo sobre essas leituras. O mais importante aqui é como cada livro nos atinge de modo único e que vocês devem dar uma chance para os dois, se quiser. Essas foram apenas as minhas impressões e o que julguei necessário informar para evitarem uma decepção, caso tenham uma perspectiva similar a minha. Verdadeiramente, desejo ler mais livros da Shari Lapena e espero que ela consiga se destacar como merece, porque a técnica de Paula Hawkins é algo que leva algum tempo e muito estudo para obter. Pela escrita de ambas, é perceptível que uma não escreve melhor que a outra e sim que elas não possuem os mesmos recursos, suporte e técnicas, afinal, a escrita não é algo que se desenvolve de uma hora para a outra. Por isso, desde que li em uma entrevista de Shari em que ela responde ao que a mantém escrevendo da seguinte forma tive certeza de que ela está no caminho certo: […] Porque é isso que eu amo fazer. Eu acho que a maioria dos escritores lhe dirá que eles escrevem porque precisam fazê-lo, é parte de quem eles são.

Entre O casal que mora ao lado e Em águas sombrias, o que não podemos esquecer é de que mergulhar nas profundezas de alguém é realmente perigoso quando as pessoas são capazes de fazer qualquer coisa.

carol eu

Dona de 18 primaveras. Feminista. Estudante de Pedagogia. Amante de MPB, animes, k-pop, doramas e uma boa xícara de café. Não vive sem livros, filmes ou maquiagem. É apaixonada por Fred Elboni e quer proteger todos os animais do mundo 🌸

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51 comentários em “Em águas sombrias × O casal que mora ao lado

  1. Olá, super curti suas resenhas, achei super interessante a proposta dos dois livros, porém quero apenas ler Em Águas Sombrias, porque O casal que Mora ao lado eu já assisti o filme, geralmente quando assisto os filmes primeiro do que o livro, perco o interesse pelo livro, bjocas e parabéns pelas resenhas ficaram ótimas.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Nossa Amamei sua postagem. Comparar livros é mto interessante. É você fez isso mto bem. Com cada detalhe. Fiquei instigada para ler o livro águas sombrias parece mto interessaninteressanTe, adoro livros que intercalar narradores. Já o casal ao lado não me intigou mto porque é mto chato saber o assassino no meio do livro. Perde a graça

    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  3. Uau!!! Que resenha!
    Estou muito curiosa para ler os livros da Paula, porque por mais que o mundo literário (principalmente romances ) sejam para mulheres, e que os autores tbm sejam mulheres ainda percebemos a presença do patriarcado em diversas escritas,mulheres que estão escrevendo para outras sobre o corpo perfeito, a roupa perfeita a submissão perfeita. E não sobre como lutar, crescer, se amar primeiro para depois encontrar o amor, ou o famoso final feliz.
    E ao meu ver esse é um dos fatores que poucos autores ganham pontos comigo, então ao ler que a Paula escreva para mulheres sobre mulheres, me causou uma imensa curiosidade em ler, e eu irei ler.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Adorei o texto! Acho importante esses comparativos pq sempre fazemos eles em nossa mente e poucas vezes comentamos assim claramente com outros leitores.
    Não li nenhum dos dois livros, mas confesso que quero os dois! Hahaha mesmo com todos os pontos que vc citou eu ainda acho que ambos me cativariam

    Osenhordoslivros blog.wordpress.com

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  5. Oi Carol! Adorei esse formato de abordar dois livros do mesmo gênero, ficou bem completo e acredito que você conseguiu passar a sua mensagem sobre cada um deles. Tenho muita vontade de ler em Águas Sombrias, por dois motivos – ao contrário de muitos, adoro histórias com vários pontos de vistas, e gostei muito de A Garota no Trem. Ah, e o seu post vale como mais um motivo, adorei! Bjos.

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  6. Olá! Menina, que postzão hahah adorei como você falhou detalhadamente das coisas que te cativaram e te entediaram nas leituras. Confesso que ainda estou com vontade de ler O casal que mora ao lado, mesmo com todos esses detalhes que empobrecem a narrativa, queria poder tirar minhas próprias conclusões e vou, espero que breve. E agora eu fiquei com uma vontade avassaladora de conhecer a escrita de Paula Hawkins, porque até hoje não li nem A garota no trem, mas vai dar certo, um dia eu consigo. #fighting A Paula deve escrever muito bem, porque adorei saber o quanto ela se preparou, também espero que a Shari continue se desenvolvendo mais e mais, porque não é fácil mesmo! Entendi a proposta do post e posso dizer que adorei, não tinha visto algo parecido em outros blogs. Parabéns!

    xoxo ❤

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    1. Olá, Haise!

      Espero que funcione para você 😀 E eu não li ainda A garota no trem porque estava muito hypado e sou muito receosa com isso hahaha mas Paula é ótima mesmo! Obrigada por opinar, um beijão ❤

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